“Por Este Rio Abaixo”, o tão aguardado álbum de estreia de Pedro Mafama, é previsivelmente imprevisível, no sentido em que este artista estandarte do novo underground Português já nos habituou a esperar algo de novo, diferente e desconcertante do seu trabalho.

A Pedro junta-se um conjunto de artistas tão eclético como as músicas que apresenta – Ana Moura, Profjam, a guitarra Portuguesa de Ângelo Freire, samples de Dead Combo e Giacometti e produção de Pedro da Linha- num disco que, apesar de aparentemente caótico, segue uma linha condutora, um mesmo sentimento, uma sensação de familiaridade que acompanha cada faixa.

O disco abre com “Noite Escura”, uma faixa com travos claros de cante Alentejano, mas sem a sensação quente, acolhedora, a que estamos habituados deste tipo de música. Esta canção apresenta um sentimento mais melancólico, metálico e moderno, mas tradicional ao mesmo tempo. Se alguma vez for criado o Dead Cante Alentejano (fica a ideia) esta música deverá ser reconhecida como primeiro exemplo do género.

O resto do álbum vai manter este tom sombrio. Mesmo os bops, as faixas mais trap, com um ritmo mais acelerado – como são exemplo “Estaleiro” e “Leva” – vão ter estas sugestões um tanto tenebrosas. Talvez sejam estes os “novos fados” de que falava Pedro Mafama. “Por este Rio Abaixo” não, será, portanto, o disco ideal para uma festa animada de Verão, a menos que seja fã de festas com um tom mais niilista.

As letras são simples, mas não simplistas. Pedro não se tenta gabar do seu vocabulário, nem devia. Não há um qualquer indício de pretensiosidade nas suas palavras, mas as mesmas estão longe de serem banais. A sua força bate como devia na altura em que devia, e percebemos que a enunciação de Pedro não é aleatória nem acidental, mas usada como complemento da mensagem. É garantido ficar-se a matutar sobre algumas das estrofes.

Não aleatória ou acidental é também a ordem das músicas. “Mercado”, o instrumental de 30 segundos com sensação quase medieval, parece servir como uma espécie de introdução ao que vem de seguida, e faz a separação entre a primeira e a segunda partes do álbum. As primeiras músicas soam mais modernas, o tom mais mórbido, mais trap, mais acutilante. A segunda parte do disco tem uma sensação mais ligada à terra, pagã, folclórica, visceral. Consegue-se até perceber influências célticas, particularmente em músicas como “Ribeira”, “Barca” e “Contra a Maré”.

Apesar de ser um álbum complexo, dispare, há, no entanto, uma palavra de ordem que o liga e essa palavra é tensão. “Por Este Rio Abaixo” é um disco tenso, o que lhe concede uma sensação quase cinematográfica, como se cada canção fizesse parte de uma banda sonora orquestrada para nunca deixar o ouvinte relaxar.

Os fãs de Pedro Mafama vão encontrar o artista que sempre conheceram e apreciam. Os novos ouvintes vão ter diversidade suficiente de sons e estilos para encontrar algo que apele ao seu gosto. Quem esperava que Pedro Mafama se reinventasse poderá desapontar-se. O artista continua a fazer experiências com os mesmos ingredientes. Mas o resultado final não desilude.

Nota: 6.5/10

Catarina Araújo