Por entre o espaço contemplativo da solidão artística, ou do embrionário termo da complexidade criativa, há vagueza em excesso para compreender os nervos de um criador semi-nómada. Tal presença da maestria milenar de cada passo dado por uma rockstar em ascensão ter-se-á encontrado (nem que por uma vez só) com as mesmas aspirações que Miguel Gomes celebrava no Natal de 2016.

Trocadinhos ao Pôr-do-Mi é a simbiose entre o alto voo da criação e a rouquidão do artista pedinte, insaciável e mordaz. A figura da dormência sonora, o vazio consciente, a guitarra fantasmagórica e o ruído mundanal que se espelha no fundo de cada tema, como uma doença sincera e consumista que nos fortifica os remédios de gente para o que carente se encontra, contornam a decadência de uma mistura profunda e desconfiada, matriculada nos ensinamentos da carga depressiva e das celebrações veranis nos invernos dos amores a dois.Este é um caminho perigosamente sedutor, o que talvez explique a companhia dos camponeses que seguem os traços de um rei pobre através do psicadelismo eclético ou do progressivo amoroso.

O “Odor” dos Malmequeres (2017) que se despedaçam pelo caminho da desgarrada de Chinaskee, Trovador Falcão e SunKing, é algo estranhamente próximo às desventuras de um aventureiro medieval que, não querendo ver chegar o fim”, o encontra na bateria penosamente vincada, nas guitarras desafiantes e no baixo elevado ao cambalear dos dragões feridos em batalhas esquecidas. As letras minimais, que não sendo “Assim Assim”, se assemelham a uma simplicidade bucólica e tranquilizante, expressada nos vocais de Chinaskee, numa cama de vaidades sonoras ou de exóticas marchas vitoriosas. Um trabalho noturno, cerrado, tenebroso que se destaca pela verdade de que a “Má Água” chega a ser um elixir mais forte que o bom vinho, daquele com o qual se celebram as Janeiras (2020) rodeado de amigos e da mesma solidão pitoresca com que se constrói o companheirismo vencedor. Chinaskee regressa às insónias criativas e com temas como “Mobília” ou “Metro e Meio I” constrói um estatuto que desperta a atenção para a sua simplicidade autoral, vincada por um esforço coletivo de encontrar em todos o génio da individualidade clandestina em cada membro de um grupo de amigos interminável que se resume a mais que uma guitarra e que um reverb da melhor safra. Este salto entre a sua expressão individualizada ou a agressividade de uma distorção avinagrada, como se sente em NOVA(rock), atiçam a ideia de que a identidade de Chinaskee é mais que a expressão de um estilo preferido, pois, é de sua preferência a liberdade, a arbitrária conexão do (im)provável com a criação e, claramente, é algo que destaca a preciosidade da sua obra.

A prova clara da sua disponibilidade artística encontra-se em 2021, aquando do lançamento de Bochechas, o seu trabalho mais profundo e complexo. A acutilância da sua abordagem  ousada e confiante, agrava a compreensão da juventude clandestina e da embriaguez emocional inerente à rebeldia do crescimento. As palpitações de cada guitarra, a omnipotência da batida pulsante e o nervosismo de um baixo motivado, representam uma sonoridade muito próxima da que nos lembra a acne maligna e a ociosidade juvenil. Temas como “Mais Atenção”, “Edredom” e “Gaja” vinculam-se a um excesso de dinâmica análoga à das primeira ereções da juventude ou das mais frutíferas rejeições amorosas, assim como “Bochechas” e “Livros” nos conduzem às primeiras noitadas do Rock n’ Roll romântico e antagónico, numa lápide conservada em espiritualismo e negrume. Assim se constroem os “Dragões” que Chinaskee ousa desafiar, os mesmos que se encontraram ao longo do percurso moroso que o acompanha, seguindo os trâmites do envelhecimento da eterna juventude, das marchas ao infinito mental, pensativo; labirintos em que a nossa própria insubordinação nos murcha a estima e a autoestima. A sua obra acaba com a esperançosa canção, nostálgica, que promove um sorriso colegial e noviço, nas graças de mais um/a moço/a/@ que tudo daria para subir ao primeiro palco do último concerto da sua jovialidade.

Reconhecendo-se que a juventude é um ato de atitude (in)voluntária, como seria de esperar pelo sofrimento enriquecedor associado à experiência de crescer, Chinaskee coloca-o numa espaço entre o bucolismo que defende a primeira lâmina de barbear, o primeiro batom vermelho, ou o segundo cigarro às escondidas dos pais como um segredo que convida a musicalidade humana a cada esquina bairrista no submundo do amadurecimento. O que de mais belo se vê no seu à vontade, é a forma como embelezar o absurdo parece algo perfeitamente banal, contrapondo-se ao canto sobre a banalidade, sendo este tal como a construção mais bonita da cidade: profundamente (in)feliz, mas solenemente eterna, tal como a idade. Enquanto houver tascos e malmequeres, nunca se abandonará a esquina puberdade.

Lécio Dias