Não é mentira nenhuma que ainda no início do ano passado Fisherman foi apresentado pela equipa da Punch como uma das grandes promessas para 2020; eu que o diga, visto que esse parágrafo promissório foi escrito por mim.

Dos vários projetos que me foram apresentados, este é um dos que, não se destacando pela sua inventividade, conquista-nos pela sua frescura no seio da música nacional. Ora, Martim Seabra (o indivíduo que define a arte que Fisherman apresentou no seu EP “And the Crowd Goes Mild”) é uma das figuras de destaque nas novas andanças dos cantautores. A sua capacidade de execução é o que realça a congruência, a solidez e a grandiosidade com que escreve canções orelhudas, sonantes, maduras e agradavelmente perspicazes. Na marcha da simplicidade e da aposta direta em temas com um traço folk, ao estilo da solidão bem-humorada, Martim traz-nos um sopro de leveza e de frescura. Como mencionei anteriormente, “And the Crowd Goes Mild”, detentor de uma sonoridade crua, áspera, mas tão bonita quanto uma rosa com espinhos, é uma obra que entusiasma qualquer um com a sua suavidade nostálgica, potenciada pelos vocais harmoniosos, construídos numa perspetiva clássica, primordial, categórica e, ainda assim, bastante humilde. O caminho que se segue desde a dormência de Country Boy, passando pelo toque de um baixo maravilhosamente bem conseguido como o de Another Game, ou pelas guitarras e teclados animados de Why Do You Sit Next To Him, terminando na viagem que define que não há lugar certo em There and Everywhere, é miraculosamente enriquecedor; sinal de outros tempos que hoje se vivem como se Martim expirasse o ar dos 60’s.

Em 2021, The Days Are Just Packed, já com Martim a assumir o nome que personifica a sua obra, é o LP que nos acolhe à chegada da descoberta; não se deixem enganar, não podemos acolher algo que nos abraçou outrora, sem parecer loucura audaz. É esta a sensação que Martim nos deixa, através da requintada refinação que o seu processo criativo atravessou, este amadureceu como um gentleman vigoroso. Os baixos apontam-se na simplicidade com que vingam a boa disposição das suas canções, as guitarras em textura camaleónica, a par dos teclados que encerram o possível espalhafato da ressonância das cordas, constroem uma superfície maravilhosa para o romancismo lírico de Martim; tal como se pode sentir em When You’re Mad At Me, If Not For You, No One Can Take You From Me, Old Hat ou Rosalie; canções que expressam um simbólico amor, embebido em simpatia, amabilidade, embelezados pela fragilidade com que os sentimentos são expostos à luz de uma pureza bucólica e natural. Uma combinação agridoce que se faz sentir com os ritmos tranquilos, mas animadores, que podemos sentir em temas como Southern Town ou Ol’ Jim’s Revenge, em que a espiritualidade se prende com 3000 raios de sol que entram (sem piedade) pela janela da alma mais deprimida. Apesar de todo a animosidade, o tema que me é mais querido é, sem dúvida, Holy Matrimony, cuja tendência sofrida, dorida, penosa, me acarinha com um sorriso mental.

A estética de Martim Seabra não é exigente, não é complexa, não é custosa… É madura, mas facilmente inocente, cordial, amável e poética, sem perder de vista a qualidade da composição. Acima disso, é fiel ao bem-estar, agradável, bem-disposta e, sinceramente, anima facilmente qualquer alma sofrida. Obrigado, Martim!

Lécio Dias