Acalmem-se palavreados, mesquinhices e azedumes; a emancipação do duo dinâmico y.azz e b-mwywingz (Mariana Prista e Margarida Adão) é um kick (dos fortes) na porta da nova música portuguesa, não sendo segredo nenhum para os mais atentos à nova cena do RnB nacional.

Saltando desde Londres até Lisboa (NOS Alive) e Madrid (Mad Cool), levam já meio mundo de inspirações que garantem a superioridade estética com que abordam a produção e a construção musical. Um cruzamento entre o estático e o dinâmico, o quente e o frio, levam a sua musicalidade a um estado em que o empate morno da voz de Mariana, apresentando-se através de letras impactantes e intuitivas, adormece a magnificência com que as produções de Margarida arrancam suspiros e surpresa em pleno trânsito emocional; espanto e encanto descrevem (perfeitamente) a agradável sensação com que se encontra este encontro multi-impressivo. A franqueza que sentimos desde o primeiro segundo até ao último minuto justificam a maturidade com que a saturação sonora nos aclara a genialidade do duo. Há uma relação de plena complementaridade entre o espírito, a latência da insubordinação criativa, a promissora abordagem estético-sonora e a cavalgante sensação de adrenalina. Um espaço trava a imposição de mover, para que se adormeçam mágoas e egos, para que se respire (à vontade) a vontade delas.

Um click efémero que ataca na hora mais movimentada, para que se morra por metade dessa mesma hora, num renascimento faseado, recorrente, sentido. Esta é a primeira impressão que nos invade ao escutar CYCLES (2021), o seu estreante longa duração. As referências que as aproximam da internacionalidade são inegáveis, mas são pequenos detalhes como a guitarra portuguesa em “-dis/closure” ou a própria interpretação fatalista, carregada de saudade, ao estilo mais fadístico. Numa abordagem chill, a roçar o trip-hop (mais do que o RnB, na minha humilde opinião), CYCLES arranca sorrisos como se fossem pétalas frágeis. Desacelera-se (tal como nos é pedido em “Slow Down”) porque é assim que o seu trabalho se faz sentir. Os reverbs hipnóticos, os pianos tranquilizantes e a mesma calmaria vocal, elevam temas como “Far From Home” ou “These Days” a uma força que, ainda que distinta, demonstra a versatilidade com que os elementos são incorporados na composição, sendo os drums o elemento mais distintivo e característico da produção da obra, não descartando a modernidade com que são estruturados e reservados à dormência melódica. Assim como “Did It All Again” (em colaboração com KOMET), “Paris” e “Repeat” beneficiam (grandemente) da inteligência com que se joga com vozes amáveis, uma perspetiva responsável em resposta ao brilhantismo com que a combinação rítmica e os 808’s dominam qualquer pescoço, amolecendo-o ao ritmo de um balanço pausado, encerrando-o com uma belíssima concretização pop, humilde e, ainda assim, tão enriquecedora; “Leftovers” encerra este ciclo de autocompetitivo, em que paramos a discutir se há algo que supere a carinhosa voz de Mariana ou a produção de Margarida, numa combinação que se apodera, impiedosamente, da experiência do ouvinte de modo a combater (consigo mesmo) uma preferência, uma atenção em específico elemento ou pormenor que, claramente não consegue dominar.

Isto é a prova de que a mistura deste duo dinâmico, explosivamente impulsiva, convidativa, requintada, eleva-as ao patamar das mais impactantes e emergentes artistas do seio da música portuguesa.

Lécio Dias