Ao quarto disco e após várias formações distintas os Sensible Soccers chegam à epítome do seu ímpeto criativo. É de ‘Manoel’ que falamos, álbum de temas compostos para acompanharem o visionamento de dois filmes de Manoel de Oliveira, ‘Douro, Faina Fluvial’ e ‘O Pintor e a Cidade’, apesar de não haver uma exacta sincronia entre os alinhamentos – existem duas faixas em ‘Manoel’ que não estão presentes na banda sonora imaginada para os filmes e alguns trechos que são tocados ao vivo também não fazem parte do álbum. É importante referir que a opinião crítica versa apenas sobre o álbum e não sobre o cine-concerto, que ainda não tive oportunidade de assistir como espectador. É com o imaginário dos filmes que partimos para esta audição.

É interessante começar por referir que os dois temas que encerram e iniciam o disco parecem fazer parte de um todo, como uma capa e contracapa se tratassem. “Nesse Jardim Onde Só Vai Quem Tu Quiseres” e “Cantiga da Ponte” são acalmia final e inicial como quem entra dentro dum universo muito específico que só os Sensible Soccers conseguem transmitir. São ambas tranquilas e espectrais, sem o ritmo marcado por uma batida, construídas à volta de diálogos entre as cordas e os teclados, e os sopros no caso da primeira do disco, telas pintadas pelos dedilhados e fôlegos de cada músico convocado a nelas participar. É desta forma muito sensível que inicia e acaba a viagem em ‘Manoel’.

A sensibilidade anteriormente mencionada tem sido uma arma constante ao longo do percurso musical da banda, já depois de ter sofrido, como foi dito, várias alterações na sua formação. Antes do anterior disco, ‘Aurora’, foi colocada a possibilidade da banda deixar de existir. Felizmente esse disco aconteceu, bem como este seguinte. Será então como uma prova superada do “difícil segundo disco”, pelo menos enquanto manutenção da formação enquanto banda nestes dois discos, e também uma súmula e resumo desse percurso atento aos sentimentos que a música pode provocar. Isso é bastante visível, por exemplo, em “Bali Hai”, tema com pulsação rítmica pujante, onde se mantêm os diálogos entre todos os instrumentos gravados, aqui com destaque para um bom momento dub a meio do tema. É notável que haja uma grande plasticidade entre todos os elementos, os orgânicos e os electrónicos, numa excelente mistura final.

Há também, como já estávamos habituados, em ‘Manoel’, temas quase introdutórios e ambientais em que vamos acompanhando lentamente a evolução cósmica das músicas, numa atitude porventura contemplativa. Sente-se isso em “Barcos”, com a sua entrada quase pós-rock, igualmente em “Fim”, com aquele riff de sintetizador a ser repetido durante o tema, ou em “Pássaros”, tema construído sobre um teclado sintetizado, a que se acrescentam a guitarra e outro teclado depois, e nos vão aquecendo a alma. São temas também sem cadência rítmica marcada em que os Sensible Soccers preferem levar-nos numa viagem espacial. Por outro lado, em “23:16”, “Avenida Brasil”, “A Noite Inteira (Karamu)” e também na já mencionada “Bali Hai”, é o ritmo que nos conduz por dentro de cada tema. “23:16” é um quase techno à maneira dos Sensible Soccers, com os teclados e as batidas bem intrincados. “Avenida Brasil” com um ritmo mais sul americano e alegre, com destaque para os sopros, uma trilha sonora para se ouvir em Copacabana. “A Noite Inteira (Karamu)” é novamente ritmo mais intenso e quebrado, mais africano, em que o baixo ganha preponderância.

É neste casamento feliz entre uma electrónica pensada para se sentir e partes instrumentais tocadas em estúdio que ‘Manoel’ é vitorioso e consegue ser um bom álbum, mantendo uma tradição que os Sensible Soccers nos habituaram. Sem ter a euforia de um ‘Aurora’, o disco anterior, é talvez mais circunspecto e ponderado, possível consequência de estarmos perante um álbum que não deixa de ser igualmente uma banda sonora para os filmes de Manoel de Oliveira. É muito interessante que o cineasta português mais longevo e produtivo inspire uma banda que decididamente veio para ficar e marcar o panorama musical nacional, uma nostálgica “Praia da Memória”, em que ‘Manoel’ se insere como mais uma página de uma história da qual ansiamos desde já pelos próximos capítulos.

Nota: 8.2/10

Emanuel de Andrade