Dois anos depois do último Super Bock em Stock voltámos a percorrer a Avenida da Liberdade em Lisboa. O festival que nos habituou a mostrar artistas emergentes, não nos deixou mal. Há muitos trabalhos a ser editados e para serem mostrados ao vivo. O público também sente essa  necessidade e aderiu a este certame.

Logo no primeiro dia assistimos a concertos interessantes, cheios de energia e boas promessas para o futuro. Carolina Milhanas foi uma das primeiras a subir ao palco. No Hotel Maxime a jovem fadista entrou cheia de garra e um look arrojado. Ainda a dar os primeiros passos, Milhanas conseguiu apresentar-se com personalidade. Percebe-se que está rodeada de pessoas que a ajudam, como é o caso de Agir, que participou nesta atuação. A colaboração entre os dois é algo que vai surgir num futuro álbum do artista, filho de Paulo de Carvalho. Ficámos curiosos para conhecer os próximos capítulos.

No Capitólio entrou em cena T-Rex, um jovem dinossauro cheio de energia. O trap explodiu e não deixo ninguém indiferente neste concerto. Mesmo para quem não está habituado a estes ritmos, tudo fazia sentido naquela palco. Este é um género que está em fase de descoberta em Portugal. Uma evolução do hip-hop, que pegou de estaca no outro lado do atlântico mas que aqui ainda dá os primeiros passos, mas com uma identidade própria.

De seguida fomos espreitar Tomás Wallenstein, Filipe Karlsson e ainda os Django Django. Sonoridades viradas para o indie-pop e o indie-rock. Wallenstein mostrou-se mais melancólico ao piano, tocando músicas de outros artistas como Zeca Afonso, José Mário Branco ou Luís Severo. Interessante, mas ainda sem a dinâmica pela qual o conhecemos na sua banda original, os Capitão Fausto. Filipe Karlsson com um visual mais arrojado, levou muitas pessoas à Estação do Rossio, mas neste momento por vezes falhou o som, que para um set melódico e pop esse aspecto não ajudou à atuação.

Os Django Django entraram um pouco frios, mas conseguiram ir conquistando o público aos poucos. A banda britânica conquistou muitos fãs com os seus primeiros dois álbuns, “Django Django” e “Born Under Saturn”, mas foram tornando-se repetitivos nos trabalhos mais recentes. Já houve momentos bons em território nacional, especialmente no NOS Alive, mas este concerto foi tudo um pouco previsível.

A primeira noite fechou com a provocação de Sports Team, o punk rock da banda de Cambridge (Inglaterra) foi surpreendente. O palco do Rossio continua a ser um local onde se encontram bons talentos num cenário de luxo, aqui a vista para a cidade de Lisboa é única. Ainda só têm um álbum no bolso, “Deep Down Happy”, mas com certeza que iremos voltar a ouvir falar dos britânicos.

A correria continua

O segundo dia começou de forma diferente e com mais reflexão. Assistimos à Talk, Mulheres na Música. Este momento contou com as artistas Bia Ferreira, Monday (aka Catarina Falcão) e a radialista Vanessa Augusto, moderado por Manuela Paraíso. Neste campo ainda há muito para fazer, começa a existir mais espaço para as mulheres, mas a programação continua a ser muito desigual. É bom debater estes assuntos, contudo é necessário existir ações concretas.

Assistimos aos concertos de Bia e Monday, duas artistas com um enorme talento, claramente com coisas interessantes para dizer a nível artístico e nas causas que defendem. A Bia Ferreira é uma artista brasileira que veio apresentar-se apenas com guitarra e voz. Uma atuação poderosa. Monday apresentou-se em duo, também de guitarra em punho. A sua sensibilidade passa para a sua música e isso toca sempre quem a ouve. Queremos continuar a ouvir estas duas vozes.

A alegria de Benny Sings subiu ao palco do Coliseu. Rodeado de uma banda bem composta, é difícil encaixar Sings numa família musical. É um pop que vai buscar influências a muitos lados. Há canções mais aceleradas e outras mais lentas. Naquele palco pode acontecer um pouco de tudo e mostram um artista multifacetado.

Uma das surpresas da noite foi Charlotte OC. Uma mulher alta e com uma figura imponente. Mas os primeiros acordes fazem logo estremecer a Sala Manoel Oliveira, no Cinema São Jorge. O repertório concentra-se em dois álbuns, o primeiro “Careless People” de 2017 e o segundo “Here Comes Trouble” de 2021. A guitarra marca a sua atuação, a voz marca as pessoas. Aqui também não há um género musical definido, há uma artista a contar as suas histórias e isso cativa-nos.

No Coliseu entravam em palco os nórdicos Iceage. Uma atuação muito crua para apresentar o mais recente trabalho “Seek Shelter”. O líder da banda, Elias Bender Rønnenfelt, tinha passado em Lisboa no Verão, mas mostrou-se super energético nesta atuação. Dois momentos diferentes, mas ambos muito autênticos.

Os super carismáticos David & Miguel estiveram no Tivoli e apresentaram um verdadeiro espectáculo. David Bruno lidera a banda e Mike El Nite espalha a magia. Em palco ainda são acompanhados por António Bandeiras e Marco Duarte. “Inatel” e “Sónia” são os dois hinos da noite. Da indumentária até aos pequenos rituais como fazer flexões em palco, há um pouco de tudo durante uma hora de concerto. É fácil gostar de David & Miguel e eles gostam de nós. Um dos chavões mais repetidos durante a noite foi “Sois demasiado gentis!”, o público replica com palmas e agradece a festa proporcionada por David Bruno. Um ícone da música nacional.

A noite acabou com a electrónica de Moullinex e Anna Prior (Metronomy). Apresentaram um set mais vocacionado para um clubbing do que para um festival. A música electrónica minimalista serviu para soltar o corpo e deixar-nos ir.

A edição de 2021 do Super Bock em Stock voltou como podia e ainda não se esgotou o conceito. Mais artistas portugueses, diferentes géneros marcaram um festival que se vai adaptando de ano para ano às novas tendências e aos novos consumos musicais. Talvez este não tenha sido a edição mais memorável. Faltou um nome maior e sonoridades mais marcantes. Mas foi possível descobrir novos talentos e dançar um pouco. Foram dois dias a deambular e a música felizmente continua a tocar.

Texto: Rodrigo Toledo

Fotografias: Beatriz Sampedro